sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Treinamentos suspeitos

Do Correio do Brasil

EUA treinam militares paraguaios e presença brasileira aumenta na Tríplice Fronteira

Por Redação, com RickTV - de Cidade do Panamá, Ciudad del Leste, Assunção e Brasília 

Soldados paraguaios participam desde o início deste semana dos exercícios militares dirigidos pelo Comando Sul dos Estados Unidos, em manobras de suposta defesa do Canal do Panamá. A participação paraguaia em um movimento de tropas norte-americanas ocorre logo após o golpe de Estado naquele país sul-americano, prontamente apoiado por Washington, contra o ex-presidente Fernando Lugo. O treinamento das tropas seguirá até o dia 17 de agosto e tem cerca de 600 militares.

“Robert Appin, do Comando Sul dos Estados Unidos afirmou que o enfoque dos exercícios é a reação a um hipotético ataque terrorista que pretenda bloquer o trânsito de navios no Canal”, afirma nota do Movimento pela Paz, a Soberania e a Solidariedade entre os Povos (Mopassol, na sigla em espanhol). Segundo a instituição argentina, há no Panamá 12 bases aeronavais controladas pelos EUA. Desde 2003, sob a direção do Comando Sul, realizam-se os exercícios militares conhecidos como Panamax, que contam com a participação de militares do Chile, Panamá e Estados unidos. Atualmente, porém, integram as manobras 17 países ao todo e é considerado um dos maiores movimentos de tropas do mundo.

O Paraguai tem participado das manobras desde 2006, mas se manteve afastado de 2009 a 2012, sendo novamente convidado após o golpe que instituiu o governo de facto do presidente Federico Franco.
Referindo-se ao exercício multinacional que usa a desculpa da luta contra o terrorismo, o jornalista cubano Miguel Lamas afirmou, dois anos atrás, que o verdadeiro projeto dos exercícios militares na América Latina são ensaios de uma invasão.

“O aparato militar dos EUA aponta para a necessidade daquele país de buscar condições militares suficientes para dominar, militarmente, os demais países latino-americanos. Eles trabalham nos setores de inteligência e no treinamento físico para manter uma força capaz de intervir, no futuro, em qualquer país do continente. Este é o verdadiro objetivo de todas e de cada uma das manobras e dos exercícios militares que fazem, sempre com a cumplicidade aberta de vários países latino-americanos e de forma encoberta por outros”.

Intercâmbio parlamentar

No caso paraguaio e do Cone Sul, vale recordar que o governo dos EUA, há anos, insiste na presença de células terroristas em Ciudad del Este, na zona denominada “tríplice fonteira” (Brasil, Argentina e Paraguai). Um grupo de parlamentares norte-americanos, em visita àquela cidade paraguaia, nesta semana, alegou que o propósito da missão é a de “compreender melhor os desafios do crime transnacikonal que o Ocidente enfrenta”, segundo porta-voz.

O Paraguai mantém fortes laços de cooperação técnica e militar com os EUA, sempre a serviço daquele país no objetivo de bloquer a presença das repúblicas socialistas da Venezuela e demais integrantes da Unasul e no próprio Mercosul, do qual fazia parte até ser suspenso após o golpe de Estado, renovando sempre seu apoio à ingerência norte-americana na região. O país abriga uma classe política de ultradireita e conservadora que, no dia 22 de junho, perpetrou um ataque à democracia e ao mandato do presidente deposto Fernando Lugo. Essa mesma classe política, formada por partidos tradicionais e dependentes do capital estrangeiro, ampliou os contatos com o Congresso norte-americano nas últimas semanas

Manobras brasileiras

Ao longo desta semana, o governo brasileiro concluiu o envio de um contingente de cerca de 9 mil militares – equipados com helicópteros de combate, navios-patrulha, aviões de caça e blindados – para a Tríplice Fronteira, na Operação Ágata 5. O movimento de tropas irá durar 30 dias.

“É uma operação de fronteira que tem por objetivo, sobretudo, a repressão à criminalidade”, disse o ministro da Defesa, Celso Amorim. A Marinha enviou aproximadamente 30 embarcações para os rios da Bacia do Prata, entre elas três navios de guerra e um navio-hospital.

A Força Aérea Brasileira (FAB) participa da operação com esquadrões de caças F5 e Super Tucano, além de aviões-radar e veículos aéreos não tripulados. O Exército mobilizou infantaria e blindados Urutu e Cascavel de três divisões. As três Forças usam ainda helicópteros Black Hawk e Pantera, para transporte de tropas e missões de ataque.

A operação terá ainda o apoio de 30 agências governamentais, entre elas a Polícia Federal, que elevarão o efetivo total para cerca de 10 mil homens. O general Carlos Bolivar Goellner, comandante militar do Sul, disse que a área crítica de patrulhamento é entre as cidades de Foz do Iguaçu, no Paraná, e Corumbá, em Mato Grosso do Sul, onde é maior a maior incidência de tráfico de drogas e contrabando.

Partiu da presidenta Dilma Rousseff a ordem a Amorim para a execução da Operação Ágata 5.

– A ação visa a reforçar a presença do Estado na fronteira com a Bacia do Prata – disse Goellner. Segundo ele, as fronteiras serão fortemente guarnecidas e como consequência o tráfico de drogas e o contrabando devem ser “sufocados”.

Para Samuel Alves Soares, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed), a decisão de ampliar o número de homens armados na região de fronteira pode ser entendida como uma mensagem da disposição de aumentar a força brasileira.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Julgamento esvaziado?

Da Rede Brasil Atual

Defesa séria contra acusação bufa esvazia julgamento do 'mensalão'


Para quem chamava a Ação Penal 470 de "julgamento do século", a cena mais simbólica foi a hora da soneca protagonizada pelos ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, flagrados aparentemente dormindo em plena sessão.

Na sexta-feira, dia de abertura dos trabalhos, o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, já jogava uma ducha de água fria em quem pedia cabeças entregues em bandejas. Sua alegações finais prenunciaram a provável absolvição de vários réus, ao reconhecer ausência de provas consistentes contra eles.

Recorreu à retórica de um discurso que caberia melhor em políticos da oposição ou em colunas de jornais da imprensa oligárquica, recheadas de frases de efeito, mas vazias de fundamentos jurídicos. Quando citou Chico Buarque, pensei que cantarolaria "Joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! (...) Maldita Geni!". A música citada era outra, que falava em "Dormia a nossa pátria mãe tão distraída; sem perceber que era subtraída; Em tenebrosas transações", talvez inspirado em processos que adormecem nas suas gavetas.

Na segunda-feira (6), os advogados de defesa acabaram de vez com o que havia de falso na denúncia superfaturada pela imprensa oligárquica e pela oposição, ao derrubarem pedra por pedra a tese de compra de apoio parlamentar, o que esvazia boa parte das demais denúncias. A defesa foi tão demolidora que a maioria dos advogados nem gastaram a hora a que tinham direito. Não se limitaram a apontar o vazio das acusações da Procuradoria. Apontaram muitas contra-provas em depoimentos. A defesa mais didática para quem não é advogado foi a de Delúbio Soares. Seu advogado contou a história que parece mais fiel ao que aconteceu de fato, inclusive admitindo a responsabilidade pelo caixa 2.

Até Marcos Valério saiu bem melhor do que entrou. O réu com mais acusações nas costas, conseguiu, segundo seu advogado, provas periciais que desmentem várias das acusações. Admitiu também o caixa 2 e a remessa por dólar-cabo, o que, dependendo dos detalhes desta operação, pode não inocentá-lo de todo.

Já se nota, pelo comportamento da imprensa oligárquica, o esvaziamento do noticiário raivoso e odioso. Alguns veículos já buscam um pouco de equilíbrio racional, sabedores que a sentença não reproduzirá suas manchetes do passado. Outros até já preferem mudar a pauta para focar outros assuntos. Talvez para não ter que dar com tanto destaque a futura absolvição.


Corrupção mundial via LIBOR - Escândalo

Do Correio do Brasil

  Robert Stevens - de Londres

O governo do Reino Unido, uma coalisão entre os partidos Conservador e Liberal Democrata, em contradição com a máxima do liberalismo de um Estado distante dos assuntos privados, anunciou nesta segunda-feira os termos de uma revisão para a London Interbank Offered Rate (Libor), após a descoberta do maior escândalo de corrupção mundial das últimas décadas. A revisão foi encomendado pelo chanceler George Osborne, e será liderada por Martin Wheatley, diretor da autoridade financeira britânica, a Financial Services Authority (FSA, na sigla em inglês), e diretor-executivo da Autoridade Financeira de Conduta, instituição que fiscaliza a atividade financeira no país.

A Libor é uma taxa diária que cobre dez moedas ao redor do mundo e é aplicada no cálculo dos juros médios cobrados nos empréstimos de curto prazo entre os grandes bancos. A taxa é calculada com base nos contratos de 16 bancos e gerida pela Associação de Bancos Britânicos (BBA, na sigla em inglês). As taxas de juros para dezenas de trilhões de dólares em hipotecas, empréstimos estudantis e cartões de crédito estão atrelados à Libor, assim como derivados financeiros avaliados em US$ 350 trilhões e títulos futuros no valor de 564 trilhões de eurodólares, próximo à significativa casa de R$ 1 quatrilhão.

No mês passado, o Barclays Bank, um dos maiores do mundo, foi multado em um total de £ 290 milhões (R$ 900 milhões) por manipular ilegalmente o movimento diário da Libor, entre 2005 e 2009. A revisão a ser realizada por Wheatley deverá impor uma limitação de danos para “proceder a uma revisão do quadro à fixação da Libor”, embora considere possível examinar “o potencial para alternativas de fixação de uma nova taxa”, de forma que os interesses dos bancos estejam priorizados. A missão de Wheatley também é a de considerar “as conseqüências da estabilidade financeira de uma mudança para um novo regime e como uma transição poderia ser adequadamente gerenciada”.

Wheatley reconheceu que a manipulação da Libor foi algo “extremamente grave”, mas antes de se pronunciar sobre qualquer ação penal contra os culpados, deixou claro que sua maior preocupação será uma “reforma urgente do processo de compilação da Libor”. A revisão de Wheatley evita lidar com qualquer das práticas ilegais do Barclays, que estão na origem do escândalo. Os termos da revisão não devem levar em conta todas as questões relacionadas “com as medidas ou ações específicas de supostas instituições financeiras na tentativa de manipular a Libor ou outras taxas de referência. Estas questões continuarão a ser investigadas pela FSA e outros reguladores ao redor do mundo”, diz a nota.

A revisão ainda levará cerca de um mês para indicar as mudanças na legislação, incluída no Projeto de Lei de Serviços Financeiros, atualmente em curso no Parlamento. Nesta sexta-feira, os escritórios do Barclays em Milão, Norte da Itália, foram alvo de uma batida policial em um processo ligado à crise da Libor. Oficiais da polícia italiana apreenderam documentos, e-mails e outras comunicações eletrônicas durante o procedimento autorizado pela Justiça daquele país. Segundo o diário econômico conservador londrino Financial Times, a batida foi “parte de uma investigação que procura ver se os consumidores italianos foram atingidos pela manipulação do banco britânico na Libor e na sua equivalente, a Euribor euro”. Analistas calculam que 2,5 milhões de famílias italianas com hipotecas ligada à Euribor sofreram graves prejuízos financeiros, no total aproximado de € 3 bilhões, com a manipulação da Euribor.

As consequências do escândalo, no entanto, aumentam dia após dia, em nível global.

Principal banco da Alemanha, o Deutsche Bank reconheceu o envolvimento de alguns de seus funcionários no aparelhamento da Libor. Alegou, porém, que apenas um “número limitado” de empregados estava envolvido e disse que uma investigação interna tinha afastado a alta direção do banco de qualquer delito. Mas o Deutsche Bank já responde a processo por denúncias de que manipulava o iene, a taxa Libor e o preço dos derivados vinculados à referência euro-yen, por litigantes norte-americanos.

Neste fim de semana, chegou-se a ventilar nos meios financeiros suíços a existência de uma operação global para se verificar a regularidade dos serviços financeiros do banco UBS, que também estaria envolvido na manipulação da Libor. No sábado, a agência inglesa de notícias Reuters, especializada em Economia, informou que os bancos Barclays, RBS e UBS “desempenharam um papel central” na manipulação das taxas. Com base na revisão de documentos judiciais e de outras fontes, a Reuters também afirma que “entre eles, os três bancos empregaram mais de uma dezena de traders que buscavam influenciar as taxas tanto em dólar, euro ou yenes. Alguns deles, que estão sob investigação, têm trabalhado para vários bancos elevando a possibilidade de que a fixação da taxa se tornou mais enraizada”.

Antigo funcionário do Barclays, Jay V. Merchant, por exemplo, supervisionou o dólar norte-americano na mesa de operações de swaps do Barclays, em Nova York, entre março de 2006 e outubro de 2009. Ele agora ocupa uma posição semelhante do UBS em Stamford, Connecticut, EUA, segundo a Reuters.

Demandas judiciais

Na última terça-feira, o Deutsche Bank e o UBS aumentaram as suas estimativas sobre risco de processos em € 580 milhões. Até o final de junho, o Deutsche Bank aumentou a sua estimativa a partir de € 2.1 bilhões para € 2,5 bilhões. UBS adicionou mais 210 milhões de francos suíços na conta de litígios. A exposição dos principais bancos envolvidos no escândalo da Libor para potenciais pagamentos resultantes de demandas judiciais coletivas chega a US$ 1 trilhão.

Nesta segunda-feira, verificou-se que o banco New York Berkshire está processando 21 bancos, incluindo o Bank of America, o Barclays e o Citigroup por danos causados pela manipulação Libor. O Berkshire alega que o aparelhamento da Libor “teve um impacto negativo sobre os pagamentos dos juros em dezenas, senão centenas de bilhões de dólares de empréstimos com taxas vinculadas à Libor”.

Professor da escola de Direito da Harvard, o professor John Coates disse que o litígio resultante da crise Libor “tem o potencial para ser o maior conjunto único de casos fora da crise financeira mundial, porque a Libor é utilizada em tantas transações, e é tão importante para tantos contratos, que este escândalo significa o mesmo que dizer que os relatórios sobre a taxa de inflação estavam errados”.

Os bancos só poderiam estar envolvidos em tais práticas ilegais porque lhes foi dada carta branca para fazê-lo pelo establishment político e os reguladores da banca internacional. Como o relatório de junho acusando Barclays demonstrou, a Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido era nada além do que um facilitador para as práticas do banco consideradas necessárias para fazer “um dinheirinho rápido”.

Com raiva do público contra os bancos crescendo, o escritório do Reino Unido para Fraudes Financeiras Graves (SFO, na sigla em inglês) foi forçado a reconhecer que tinha poderes para agir contra os bancos envolvidos na manipulação de Libor, mas ainda não os exerceu. Como as investigações sobre Libor continuam em dezenas de instituições bancárias ao redor do mundo, por pelo menos 10 autoridades reguladoras financeiras, em três continentes, espera-se que alguns deles terão de enfrentar acusações pesadas por atividade criminosa.

Executivo-chefe do RBS, Stephen Hester disse ao diário britânico The Guardian, nesta segunda-feira, esperar que o banco venha, em breve, a enfrentar acusações relativas à Libor e ser atingido com uma multa ainda sem um valor definido. Uma investigação do banco pela FSA estava em andamento, disse ele, acrescentando: “O RBS é um dos bancos atrelados à Libor”.

– Nós vamos ter o dia em que os holofotes irão se direcionar na nossa direção – prevê.

Robert Stevens é articulista da Global Articles.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Dois pesos e dois mensalões

Da Folha de S. Paulo

Janio de Freitas

A premissa de serem crimes conexos os atribuídos aos réus do mensalão do PT não valeu para o mensalão mineiro

Na sua indignação com o colega Ricardo Lewandowski, o ministro Joaquim Barbosa cometeu uma falha, não se sabe se de memória ou de aritmética, que remete ao conveniente silêncio de nove ministros do Supremo Tribunal Federal sobre uma estranha contradição sua. São os nove contrários a desdobrar-se o julgamento do mensalão, ou seja, a deixar no STF o julgamento dos três parlamentares acusados e remeter o dos outros 35, réus comuns, às varas criminais. De acordo com a praxe indicada pela Constituição.

Proposto pelo advogado Márcio Thomaz Bastos e apoiado por longa argumentação técnica de Lewandowski, o possível desdobramento exaltou Barbosa: "Essa questão já foi debatida aqui três vezes! Esta é a quarta!" Não era. Antes houve mais uma. As três citadas por Barbosa tratavam do mensalão agora sob julgamento. A outra foi a que determinou o desdobramento do chamado mensalão mineiro ou mensalão do PSDB. Neste, o STF ficou de julgar dois réus com "foro privilegiado", por serem parlamentares, e remeteu à Justiça Estadual mineira o julgamento dos outros 13.

Por que o tratamento diferenciado?

Os nove ministros que recusaram o desdobramento do mensalão petista calaram a respeito, ao votarem contra a proposta de Márcio Thomaz Bastos. Embora a duração dos votos de dois deles, Gilmar Mendes e Celso de Mello, comportasse longas digressões, indiferentes à pressa do presidente do tribunal, Ayres Britto, em defesa do seu cronograma de trabalho.

A premissa de serem crimes conexos os atribuídos aos réus do mensalão petista, tornando "inconveniente" dissociar os processos individuais, tem o mesmo sentido para o conjunto de 38 acusados e para o de 15. Mas só valeu para um dos mensalões.

Os dois mensalões também não receberam idênticas preocupações dos ministros do Supremo quanto ao risco de prescrições, por demora de julgamento. O mensalão do PSDB é o primeiro, montado já pelas mesmas peças centrais -Marcos Valério, suas agências de publicidade SMPB e DNA, o Banco Real. Só os beneficiários eram outros: o hoje deputado e ex-governador Eduardo Azeredo e o ex-vice-governador e hoje senador Clésio Andrade.

A incoerência do Supremo Tribunal Federal, nas decisões opostas sobre o desdobramento, é apenas um dos seus aspectos comprometedores no trato do mensalão mineiro. A propósito, a precedência no julgamento do mensalão do PT, ficando para data incerta o do PSDB e seus dois parlamentares, carrega um componente político que nada e ninguém pode negar.

A Polícia Federal também deixa condutas deploráveis na história do mensalão do PSDB. Aliás, em se tratando de sua conduta relacionada a fatos de interesse do PSDB, a PF tem grandes rombos na sua respeitabilidade.

Muito além de tudo isso, o que se constata a partir do mensalão mineiro, com a reportagem imperdível de Daniela Pinheiro na revista "piauí" que chegou às bancas, é nada menos do que estarrecedor. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, com seu gosto de medir o tamanho histórico dos escândalos, daria ali muito trabalho à sua tortuosa trena. Já não será por passar sem que a imprensa e a TV noticiosas lhes ponham os olhos, que o mensalão do PSDB e as protetoras deformidades policiais e judiciais ficarão encobertas.

É hora de atualizar o bordão sem mudar-lhe o significado: de dois pesos e duas medidas para dois pesos e dois mensalões. 


Concurso para professores

Da Revista Fórum

Revista Fórum e Fundação Banco do Brasil promovem o 3º Concurso Aprender e Ensinar – Tecnologias Sociais, que levará vencedores ao Fórum Social Mundial de 2013

Professores da Educação Básica, vinculados à rede pública de todo o Brasil podem se inscrever no 3º Concurso Aprender e Ensinar – Tecnologias Sociais, até o dia 5 de outubro. Seis serão premiados, um de cada região do Brasil (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte), e um de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia.

Além disso, serão selecionados 64 finalistas, que irão a Brasília participar de seminário sobre tecnologia social na educação, nos dias 9 e 10 de novembro, com todas as despesas pagas pelo concurso. Os finalistas ainda receberão um tablet e um troféu. 

Todos os professores que se inscreverem no concurso ainda ganharão assinatura da Revista Fórum até fevereiro de 2013, o livro sobre Geração de Trabalho e Renda e passarão a integrar a rede de educadores Aprender e Ensinar. Podem se inscrever professores da Educação Básica, vinculados à rede pública, institutos federais, escolas técnicas públicas e espaços não fomais de educação, como EJA e ONGs.

Vencedores rumo à Tunísia
Os seis vencedores serão anunciados no final do seminário, nos dias 9 e 10 de novembro, em Brasília. Eles vão participar do Fórum Social Mundial de 2013 e divulgar suas tecnologias premiadas em seminário organizado pela revista e pela Fundação.

Esta é a terceira edição do concurso que busca reconhecer, apoiar e disseminar o uso de tecnologias sociais na educação. O 1º Concurso Aprender e Ensinar foi realizado em 2008 e recebeu 2.640 inscrições de todo o Brasil. Os vencedores foram ao FSM de Belém (PA). Na segunda edição, em 2010, foram 3.075 inscritos, e os cinco educadores premiados viajaram a Dacar, no Senegal, em 2011.

Nas duas primeiras edições do concurso eram premiados cinco educadores que atuam em escolas públicas, um de cada região do País. Neste ano, foi criada mais uma categoria para professores de institutos federais.

Tecnologia Social
As tecnologias sociais são soluções simples, de baixo custo, capazes de promover uma transformação social. Seu objetivo é justamente o desenvolvimento local. São iniciativas onde a comunidade é protagonista e que podem ser reaplicadas em qualquer lugar. Entre as premiadas nas edições anteriores estão: a construção de um forno solar; uma horta de ervas medicinais feita pelos alunos, professores e comunidade; a criação de uma moeda verde para troca de materiais recicláveis; um programa de inclusão de crianças surdas por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

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Popularidade de Dilma cresce de novo

Do Correio do Brasil

A popularidade da presidenta Dilma Rousseff volta a bater recorde sobre recorde. Desta vez, em pesquisa divulgada nesta sexta-feira pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), Dilma é aprovada por 75,7% da população. No estudo, realizado entre os dias 18 e 22 de julho, o resultado mostra que a popularidade pessoal da presidenta, com um ano e meio de governo, sobe sem parar. No mesmo período de seu primeiro mandato, o antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva detinha 54,1% de aprovação de acordo com a pesquisa da época que usou a mesma metodologia.

A desaprovação a Dilma também é menor do que a de Lula na metade do segundo ano de governo. A pesquisa aponta que 17,3% da população desaprovam o desempenho pessoal da presidenta e 7,1% não responderam à questão. Em 2004, quando a pergunta era sobre o desempenho de Lula, 37,6% desaprovaram o ex-presidente e 8,3% não optaram por não responder à pergunta. Com relação à última pesquisa CNT que mediu a popularidade pessoal de Dilma – realizada entre 7 e 12 de agosto de 2011 –, a aprovação aumentou e a desaprovação caiu. Em 2011, 70,2% da população a aprovavam e 21,1% a desaprovavam. Agora, são 75,7% de aprovação e 17,3% de desaprovação.

A pesquisa da CNT também simulou cenários da próxima eleição presidencial, de 2014. Se a disputa fosse hoje, segundo o levantamento, Dilma venceria o senador Aécio Neves (PSDB), seu mais provável adversário, já no 1º turno.

De acordo com a pesquisa, a maioria da população (56,6%) também avalia positivamente o governo de Dilma Rousseff. Na pesquisa anterior, feita de 7 a 12 de agosto de 2011, o governo era bem avaliado por 49,2%. Em 2011, 10,1% da população consideravam o governo Dilma como “ótimo”. Agora são 13,4% com essa opinião. Já o índice de “bom” foi de 39,1% para 43,2%. O “regular” passou de 37,1% para 35,5%. “Ruim” foi de 4,3% para 3,4%. E “péssimo” saiu de 5% para 3,6%. E 1% não opinou – no ano passado foram 4,6%.


Cachoeira chega ao STF

Do Correio do Brasil

CPMI do Cachoeira levanta dados que se cruzam com processo do ‘mensalão’ e alertam ao STF

O escândalo eleitoral mais ruidoso das últimas décadas, apelidado de ‘mensalão’, e a quadrilha do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, têm mais pontos em comum do que presumiam os magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF), onde o julgamento da Ação Penal (AP) 470 se reinicia, nesta segunda-feira, com o pronunciamento dos advogados de defesa de 38 réus. Juntos, eles teriam formado uma organização criminosa destinada a comprar votos de parlamentares, segundo a longa tese do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, oficializada na sustentação oral de mais de cinco horas, na sexta-feira. Os fatos apurados por parlamentares, agentes da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF), porém, começam a desenhar um contorno da realidade bem diferente daquele que sugere a peça de acusação.

Negociadores experientes conversam com Cachoeira, encarcerado no Presídio da Papuda, em Brasília, segundo fonte confidenciou ao Correio do Brasil, “para acertar os pontos finais de uma delação premiada”, benefício legal que poderá ser concedida ao contraventor, caso ele resolva falar o que sabe sobre a rede de crimes que comandava no país. Cachoeira, privado da liberdade há quase seis meses e das visitas íntimas da mulher dele, Andressa Mendonça, desde que ela foi detida pela acusação de tentativa de suborno a um juiz federal, há uma semana, “está vivendo um inferno”, afirmou um advogado a colegas do escritório do jurista Márcio Thomaz Bastos, que renunciou à defesa do bicheiro.

– O Cachoeira está perto do seu momento de quebra. Ele começou a compreender agora, com clareza, que apesar dos recursos financeiros de que ainda dispõe, foi abandonado por todos os seus contatos no mundo político, jurídico e nos veículos de comunicação que, no início, ainda tentavam enquadrá-lo como um ‘empresário na área de jogos’, em uma cartada para evitar que o processo chegasse às conclusões que, dia após dia, ficam mais robustas para as autoridades no Judiciário e do Congresso, onde a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) liga todas as pontas do esquema criminoso. A delação de Cachoeira seria o elo final na cadeia de eventos que teve início com a denúncia do chamado de ‘mensalão’ – disse a fonte.

Uma das linhas de investigação mais consistentes, segundo promotor do MPF que também prefere manter o anonimato para evitar qualquer dano ao processo contra o esquema criminoso de Cachoeira, é aquela que liga a quadrilha do contraventor a um processo de financiamento de campanhas eleitorais e de enriquecimento ilícito de seus cúmplices similar ao outro, controlado pelo publicitário Marcos Valério, principal réu na AP 470. Enquanto Cachoeira “abastecia os cofres de seus aliados políticos à direita”, em legendas como o PSDB, o DEM e o PPS, “Marcos Valério trabalhava para setores da base aliada na montagem de um possante caixa 2, pronto a irrigar candidaturas ligadas ao conjunto de siglas de apoio ao governo”, constata o promotor público em conversa com o CdB, neste domingo.

– A teoria de uma conspiração no Palácio do Planalto, à época do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, montada para comprar parlamentares e perpetuar o governo petista no poder, mostra-se cada vez mais frágil diante dos fatos ocorridos. Não há nenhuma novidade. O que ocorreu em 1994, em escala anabolizada, vinha desde 1998 com o sistema de caixa 2 montado por Marcos Valério em Minas Gerais, destinado a pagar as contas de campanha do então candidato Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Ele desviava quantias vultosas do Erário por meio de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro – argumenta o promotor.

Esse esquema, batizado de ‘mensalão mineiro’, também chamado de ‘mensalão tucano’ ou ‘valerioduto tucano’, teve início na campanha para a eleição de Azeredo – um dos fundadores, e presidente do PSDB nacional – ao governo de Minas Gerais. O caso está detalhado em denúncia formulada pela Procuradoria Geral da República ao STF contra Azeredo que, segundo os autos, seria “um dos principais mentores e principal beneficiário do esquema implantado”. Azeredo é acusado de “peculato e lavagem de dinheiro”. Uma solução idêntica, mas de dimensões nacionais, administrada também por Valério, teria servido como fonte financiadora para uma série de operações destinadas ao pagamento de dívidas de campanha dos partidos ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Até onde conseguiram chegar as buscas por provas no processo da AP 470, Valério e Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, trabalhavam em conjunto para quitar os gastos realizados nas disputas a cargos públicos e formar um estoque financeiro suficiente para as próximas campanhas. Tão logo o candidato petista venceu as eleições, em 2004, com a proximidade entre Valério e o tesoureiro do PT, ter-se-ia iniciado o processo de captação de recursos, por meio de contratos fraudulentos em publicidade junto às estatais e aos ministérios. Na oposição – após décadas na condução dos destinos do país e próspero na formulação das políticas criminosas que deram origem ao Best seller do jornalista Amaury Ribeiro Jr, Privataria Tucana – o PSDB, que conheceria por dentro o funcionamento da trama criminosa, teria em Cachoeira o seu principal agente para denunciar a corrupção de funcionário dos Correios, Maurício Marinho, e detonar a mais consistente tentativa de derrubar um governante eleito no país, desde a queda do então presidente Fernando Collor, em 1990.

– Era a oportunidade exata para bater pesado no governo, com o apoio da revista (semanal de ultradireita) Veja e demais meios conservadores de comunicação que o apoiam, entre eles os diários conservadores paulistano Folha de S. Paulo e carioca O Globo – relembra a fonte.

A tentativa falhou. Tanto a popularidade de Lula quanto a renúncia do então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, reduziram a pressão pela abertura de um processo de impedimento do presidente da República, como se chegou a ventilar na época. Dirceu, no entanto, apontado como líder da suposta quadrilha que comprava votos, sempre negou a existência do pagamento de um ‘mensalão’ aos parlamentares da base aliada. Tratava-se, sim, da formação de um caixa 2 para a sustentação das campanhas eleitorais do PT e de seus aliados, como reconheceram os principais acusados à CPMI que produziu o relatório usado pela Procuradoria Geral da República para acusar os 38 réus na AP 470.

A proximidade entre os esquemas de Cachoeira e de Marcos Valério foi citada até em Londres, na edição deste domingo do diário britânico The Guardian, um dos mais vetustos jornais da Inglaterra:

“O escândalo do mensalão não é o único grande caso de corrupção a aparecer nas manchetes nas últimas semanas, com outras questões levantando a probidade das próprias organizações que deveriam estar investigando crimes. O investigador da polícia de Wilton Tapajós Macedo foi morto no mês passado, enquanto regava as flores no túmulo de seus pais. De perto, dois tiros foram o suficiente. Um passou pela têmpora, o outro através da garganta.”

Peça de ficção

A retórica de Gurgel, no entanto, enfrenta agora as críticas, ainda que reservadas, de ministros do STF e de autoridades que acompanharam a sustentação oral da semana passada. Ficou evidente, na peça de acusação, a falta de provas consistentes contra Dirceu, apontado como “mentor intelectual” do que o procurador classifica de o “mais atrevido caso de corrupção e desvio de recursos no Brasil com o objetivo de comprar parlamentares”. Diante dos fatos, a Corte Suprema se divide. Os vários pontos frágeis do relatório de Gurgel, que o deixam próximo a “uma peça de ficção”, segundo comentou um dos ministros do Supremo, reservadamente, deixam dúvidas suficientes para que os magistrados votem pela absolvição dos principais réus no processo.

Segundo uma das autoridades presentes ao Plenário do STF, na sexta-feira, após ouvir a longa exposição de Gurgel, aquela era “uma denúncia ‘pra galera”. Segundo afirmou a jornalistas, não há elementos no processo capazes de imputar a Dirceu a acusação por crime de lavagem de dinheiro. O ex-ministro responde por corrupção ativa e formação de quadrilha.

– Aqueles que tinham o domínio financeiro sobre o esquema ficaram de fora da lavagem de dinheiro. Formação de quadrilha, embora renda boas manchetes para os jornais, não leva a nada – afirmou. Foram enquadrados por lavagem de dinheiro os deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e Pedro Henry (PP-MT), e o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato.

A dificuldade do STF para julgar a AP 470 sem esbarrar no envolvimento dos tucanos em ação semelhante, nas Minas Gerais, também foi citada em matéria do conservador El Clarín, de Buenos Aires: “Embora seja uma sentença muito aguardada por alguns setores do governo e da oposição, não parece simples. Um dos 11 juízes do Tribunal tem denúncias contra ele. Trata-se de Gilmar Mendes, de quem se diz ter sido beneficiado por um esquema semelhante de corrupção montado em 1998 em Minas Gerais pelo ex-governador daquele Estado, o social-democrata Eduardo Azeredo. Coincidentemente, os circuitos de dinheiro que impulsionaram esse governador também foram comandados pelo publicitário Marcos Valério.”

Para a rede norte-americana de TV CNN, os partidos de direita falharam completamente na tentativa de desgaste aos governos progressistas liderados pelo PT, que assumiram os destinos do país a partir da metade da última década. “A atual presidente Dilma Rousseff, também do Partido dos Trabalhadores, nunca foi conectada ao escândalo. Na verdade, Dilma Rousseff goza de uma forte taxa de aprovação de 77%. A visão de muitos brasileiros é que ela tomou uma posição firme contra a corrupção, despedindo seis ministros suspeitos de desvios”, afirma a emissora.

Valério preso

Um dos 38 réus no processo do ‘mensalão’, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza tem os seus dias de liberdade contados, segundo um dos analistas do julgamento em curso. Acusado de ser o operador do esquema de caixa 2 tanto do PSDB quanto da base aliada do governo, no Congresso, Valério pode ser sentenciado a mais de 140 anos de prisão em razão das dez ações criminais a que responde na Justiça Federal em Minas, além de outros cinco processos criminais na Justiça estadual mineira, entre eles por envolvimento no ‘valerioduto tucano’, e outro no Judiciário do Estado da Bahia.

A maior parte destas ações resulta das próprias investigações que deram origem à denúncia do ‘mensalão’ e que foram desmembradas. Com isso, o Ministério Público Federal (MPF) em Minas já conseguiu duas condenações para o empresário que, juntas, somam 15 anos de prisão. A primeira sentença, dada pela Justiça no ano passado, rendeu seis anos e dois meses de condenação por crime contra o sistema financeiro, mas o MPF recorreu, pedindo o aumento da pena.

A segunda condenação, de fevereiro, é fruto de investigações originadas em torno do ‘mensalão’ e rendeu mais nove anos e oito meses de prisão ao empresário por sonegação fiscal e falsificação de documento público. Além de Marcos Valério, foi condenado seu ex-sócio nas agências SMP&B e DNA Cristiano de Mello Paz, que também é réu na AP 470, mas a defesa recorreu e o caso ainda vai ser analisado pelo Tribunal Regional Federal da 1.ª Região. Nas duas condenações, o Judiciário concedeu aos acusados o direito de recorrer em liberdade.

Valério ainda enfrenta na Justiça Federal em Minas acusações de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, fraude processual, formação de quadrilha, falsificação de documentos públicos e uso de documentos falsos. Na Justiça mineira, responde ainda a processos por crimes contra a ordem tributária, contra a fé pública e lavagem de dinheiro. Já na Bahia o empresário responde a ação por grilagem de terras e falsificação de documentos e chegou a ficar 12 dias preso no fim do ano passado, em razão das acusações. A legislação brasileira, no entanto, impede que qualquer condenado passe mais de 30 anos na prisão, mas ele poderá ser preso logo após a decisão do STF.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O início do julgamento

Do Correio do Brasil

Por Gilberto de Souza - do Rio de Janeiro
 
Teve início, nesta quinta-feira, o julgamento da Ação Penal (AP) 470 no Supremo Tribunal Federal (STF), com o peso de um ‘julgamento do século’, o que talvez seja, diante de tão pouco tempo transcorrido desde o réveillon de 2000, quando outros escândalos campeavam soltos pela República brasileira. Os ministros da Suprema Corte, reunidos diante da história conhecida como ‘mensalão‘, vão julgar os destinos de 38 pessoas, todas envolvidas de alguma forma na crise que abalou o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os ingredientes políticos de uma questão agora restrita ao entendimento jurídico pesam de forma inequívoca sobre as togas dos homens públicos que, dotados de conhecimento suficiente da legislação brasileira e do processo em si, precisarão expedir um voto sobre a culpabilidade ou a inocência de cada um dos acusados.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em sua denúncia, acredita piamente na história do deputado cassado Roberto Jefferson (PTB) de que o alto escalão do Executivo pagava uma quantia, em dinheiro vivo, à base aliada, em troca de apoio aos projetos em votação no Congresso. Jefferson acusou o ex-ministro-chefe da Casa Civil e deputado igualmente cassado José Dirceu (PT) de comandar o esquema que, rapidamente, a mídia conservadora batizou de ‘mensalão‘. Dirceu negou, e nega, que tal circunstância tenha existido. Trata-se, segundo Dirceu, de uma mentira repetida mil vezes para que pareça verdade, criada para solapar o então torneiro mecânico que acabara de se tornar presidente da República e, ao mesmo tempo, reduzir a culpa do denunciante, envolvido em um caso de corrupção explícita nos Correios, onde um de seus indicados a cargo de confiança recebeu o pacotinho de R$ 3 mil do preposto de Carlos Augusto Ramos, o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Naquela época, Cachoeira era desconhecido da maioria dos brasileiros, mas transitava com desenvoltura nos corredores da revista semanal de ultradireita Veja, a mesma que publicou a denúncia do ‘mensalão‘, ora denunciada como braço midiático do esquema criminoso destinado a subtrair recursos bilionários dos cofres públicos. Encarcerado no presídio da Papuda, em Brasília, o contraventor é hoje um trapo, se comparado ao influente ‘empresário na área de jogos’, como seus ex-aliados tentavam classificá-lo. Foi abandonado à própria sorte. Chegou a reclamar com a mulher, Andressa Mendonça, que se sentia uma espécie de leproso, e já estaria negociando a delação premiada, para desasossego de políticos das mais variadas legendas, em todo o país. Se fechar rápido o acordo com a Justiça Federal, Cachoeira ainda poderá influenciar no julgamento da AP 470, tamanho é o arquivo que deve disponibilizar sobre o processo de arrecadação de dinheiro sujo para campanhas eleitorais e da corrupção em curso no Brasil.

A Corte de Justiça mais alta do país, nesta tarde, começou a determinar se prevalece a tese de que uma quadrilha organizada encarregava-se, de forma sistemática, do furto constante ao Erário, com a distribuição do butim aos aliados no Congresso, ou se a lambança toda era, na realidade, manobra de recursos originários do caixa 2 de empresas, muitas delas com contratos fechados na esfera pública, para as campanhas eleitorais dos partidos políticos.

Na primeira hipótese, Dirceu, o então ministro mais poderoso do governo Lula e seu provável sucessor, em lugar da atual presidenta, Dilma Rousseff, corre o risco de ser condenado a penas duras, equivalentes à guilhotina para qualquer pretensão a uma carreira pública, no futuro. Se prevalecer o entendimento de que, na realidade, o publicitário Marcos Valério organizava um propinoduto consistente, pronto a abastecer as campanhas de candidatos de partidos que iam desde o PT ao PSDB, para os mais variados cargos no Executivo e no Legislativo, com ramificações no Judiciário, Dirceu tem uma grande chance de sair livre e com moral suficiente para retomar seu mandato na Câmara Federal, em uma nova eleição.

Seja lá qual for a sentença na cabeça de cada juiz, o que quer a opinião pública brasileira e o sagrado direito à Justiça determina é que seja prolatada com base nas provas constantes dos autos e não em historinhas mastigadas pela mídia de propriedade daquelas mesmas empresas aliadas, de alguma forma, ao esquema criminoso que reúne, há mais décadas do que já teve o século deste julgamento, os piores pesadelos à lisura e à probidade exigidas à res publica.

Em matéria publicada na edição desta quarta-feira, aqui no Correio do Brasil, o presidente do Congresso, senador José Sarney, depositou o seu voto de confiança em um julgamento justo para todos os acusados, no STF. Da mesma forma, o jornalista do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo Jânio de Freitas afirma que os brasileiros querem “é a imparcialidade nos julgamentos todos”.

“É a equanimidade entre as decisões voltadas para os desprovidos e aquelas que se dirigem aos possuidores de riqueza ou de força política. É o direito à justiça também quanto ao tempo, porque, mesmo se favorável, a decisão que tarda dez, 20, 30 anos nunca fará justiça. É o julgamento limpo do ‘mensalão’, para condenar sem maldade ou absolver com grandeza”, afirma Jânio de Freitas.

Ainda segundo o cronista, no próprio diário que deu voz à história contada por Roberto Jefferson, embasa a acusação do procurador Gurgel e faz dobradinhas com a revista ligada ao esquema de Cachoeira, compete aos ministros do STF abstrair da pressão exercida pela mídia que pende para o linchamento de José Dirceu. Em um texto recente, Freitas chega a afirmar que “o julgamento do ‘mensalão‘ pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário”.

“Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o ‘mensalão’, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes. Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente”, conclui o cronista.

Gilberto de Souza é editor-chefe do Correio do Brasil.

Julgamento de exceção

Do Correio do Brasil

Por Antonio Lassance - de Brasília

Dizer que o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país é corromper a própria história da corrupção do Brasil. É um favor que se faz a uma legião de notórios corruptos e corruptores de tantas épocas que jamais foram devidamente investigados, indiciados, julgados, muito menos condenados.

O que se pode de fato dizer sobre a Ação Penal 470é que nunca antes, na história desse país, um escândalo foi levado, com está sendo agora, às suas últimas consequências.

Como é possível que, em apenas 2 anos (supostamente, de 2003 a 2005, quando foi denunciado), um único esquema tenha sido capaz de superar aqueles constantes de 242 processos engavetados e 217 arquivados por um único procurador-geral? Também falta um pouco de noção de grandeza a quem acha que o financiamento irregular a políticos, de novo, em apenas dois anos, pudesse ter causado mais prejuízo aos cofres públicos do que o esquema que vendeu um setor econômico inteiro, como foi o caso da privatização do sistema de telecomunicações. Será mesmo que o mensalão também superaria, em valores e número de envolvidos, os esquemas que levaram ao único “impeachment” de um presidente brasileiro? Improvável.

Um espetáculo para inglês ver

O mensalão é o ponto culminante de um processo de crescente ativismo judicial que transborda para o jogo da política. Longe de ser um julgamento técnico, trata-se de um exemplo da politização da pauta do Judiciário. O grande problema para a Justiça é que a linha entre a politização e a partidarização é tênue. O bastante para que este Poder passe a ser alvo de suspeitas de que sua atuação esteja sendo orientada e dosada com base em quem se julga, e não no que se julga.

É óbvio que o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do Partido, José Genoíno, por exemplo, serão julgados menos pelo que fizeram e mais pelo que representam. É a própria imagem do PT que estará exposta à condenação. Dirceu, em particular, se tornou o maior troféu desta ação penal, sobretudo pelo seu significado para o PT. Mas o tamanho do castigo a ele encomendado em certa medida se explica por Dirceu ter encabeçado, em 2004, a proposta de controle externo sobre as ações do Ministério Público, no que acabou conhecido como projeto de “lei da mordaça”.

Embora singular, o mensalão é mais um dentre os inúmeros episódios que foram explorados visando criar uma aversão pública e uma rejeição à marca PT. A tentativa de criminalizar este Partido vem desde o nascedouro, em 1980, quando Lula foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional pelas greves dos metalúrgicos do ABC paulista, em 1980. O PT já nasceu indiciado, denunciado e exposto ao escárnio, poucos meses após sua fundação.

O atual julgamento tem de tudo para ser um exemplo. Elogiado pela revista The Economist como um avanço, já pode ganhar o status de processo feito para Inglês ver. É um exemplo do rigor que a Justiça não costuma empregar. Um exemplo de inquérito que se conclui a tempo de produzir consequências políticas profundas (de longo prazo) e imediatas (bem em meio a uma campanha eleitoral). O escândalo e seu desdobramento judicial foram meticulosamente trabalhados para serem como um carimbo, repetido incansavelmente até que possa tornar-se parte indissociável de uma memória de longa duração sobre a sigla.

Os crimes dos Tupinambás
 
Embora pareça uma novidade, a ação reproduz padrões de desigualdade que marcaram a administração da justiça no Brasil desde sempre.

Quando o governador-geral, Tomé de Souza, por aqui chegou, no século XVI, deparou-se com o episódio da morte de um colono português por um Tupinambá. A tribo foi ameaçada pelo novo governante e o responsável pelo crime se entregou. Em um espetáculo público “exemplar” e inédito, que permaneceria por muito tempo na lembrança dos que assistiram à punição, o Tupinambá teve sua cabeça amarrada à boca de um canhão e destroçada. Havia até um inglês assistindo à execução, o viajante Robert Southey, a quem devemos o relato para a História.

É claro que as práticas que supostamente constituem a base das acusações da AP 470 são vergonhosas e inadmissíveis, mas não é esta a questão. A dúvida que permanece é sobre o critério utilizado para se estabelecer punições. Afinal, os Tupinambás estão sendo punidos com tal rigor por seus crimes, ou por serem Tupinambás? Crimes desse tipo serão punidos, doravante, da mesma forma, ou apenas se demonstrará que os “portugas” podem, os Tupinambás não podem? Os chefes políticos de outros esquemas, como o que é objeto de uma CPMI em curso, terão suas cabeças igualmente amarradas à boca do canhão pelo procurador-geral?

Até o momento, a AP 470 é exemplar de algo que o sistema judiciário não costuma fazer: vigiar e punir aqueles que estão incumbidos do mais alto exercício do poder. Neste sentido, é um julgamento de exceção. Mais uma daquelas feitas para confirmar a regra.

Para o Partido dos Trabalhadores, já se impôs uma de suas mais duras lições. Mesmo quando aculturado pelos usos e costumes da política tradicional, continuará sendo vigiado e punido por sua natureza: a de ser um partido de Tupinambás.

Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.


Pastoral da Juventude

Tive a honra de receber na semana passada um exemplar de dois livros de JOSÉ RENATO POLLI: Sonhos de Juventude e Do Etéreo ao Imanente: a transcendência como fraternidade. Renato, hoje doutor em educação, foi companheiro de caminhada nos tempos da Pastoral da Juventude, pelos anos de 1980/1986.

Seu primeiro livro (Sonhos de Juventude), devorei no dia seguinte ao recebimento. Por um motivo muito simples: fez acordar em minha memória recordações de uma etapa vivida que pela dureza da vida já estavam bastante esquecidas. Aliás, esse é um dos meus maiores defeitos: o que me machuca, esqueço rapidamente.

Não pensem que Renato ou minha vivência na Pastoral da Juventude é que me machucaram. Em absoluto. Foi um período intenso e rico em conhecimento e ações concretas. Um período que seu livro reserva para analisar parte dele, a saber o movimento de encontros que dominaram a pastoral em Jundiaí entre 1969 e 1981. O movimento de encontros tinha como características principais a conversão, a resignação e o assumir de culpas (pecados) por indivíduo. Todos eram culpados, todos tinham que se reconciliar com Deus, já que haviam-no esquecido. E o livro mostra com bastante detalhe como isso aconteceu em nossa Diocese de Jundiaí. Os exageros, os extremos, a total desvinculação do movimento com o que acontecia à sua volta. É bom recordar que o período histórico é o mais tenebroso que tivemos em nossa história recente. E nossa Igreja não estava preocupada com isso. Renato mostra com muita clareza que isso não acontece por acaso: era uma influência direta dos bispos que comandaram a diocese. Fala sobre a característica contemplativa de D. Gabriel (primeiro bispo da diocese) e da não comprometedora e espiritualista de D. Roberto, seu sucessor e os bispos do período estudado por Renato. Fala dos extremos com exemplos que assustam àqueles menos avisados. E fala da transição desse caminhar para a Pastoral da Juventude alinhada com as orientações da CNBB. A transição aconteceu entre 1981 e 1986, período em que tivemos a Assembleia das Igrejas na diocese, coordenada pelo Padre Paulo André Labrosse (recentemente vigário de nossa Igreja de Nsa. Senhora do Monte Serrat) e o 1º Congresso Diocesano da Pastoral da Juventude (onde fui um dos coordenadores).

Salto teve uma vida de militância jovem católica muito intensa naquele período. Muitas de nossas lideranças atuais (por ex. Juvenil) fizeram parte de seus grupos. Inclusive eu. Muito cedo (com 9 anos) ingressei no grupo de coroinhas da Igreja de São Benedito. Lá fiquei até me tornar jovem e ajudar a construir o GUS – Grupo Unido Saltense – que muito fez na paróquia e na cidade. Uma de suas grandes marcas foi o FEMUJO – Festival de Musica Jovem – realizado por sete anos seguidos. Outra marca foi o questionar. Tivemos o privilégio de ter padres bastante abertos em suas pastorais, o que provocou aprofundamentos grandiosos. Também passamos pela etapa dos encontros de jovens, que hoje vejo como uma verdadeira “lavagem cerebral” dos que por eles passavam. Quantas vezes não fiz palestras onde apontava meu dedo indicador para os jovens, acusando-os de pecadores (não porque eram, mas porque em nossa visão naquele período, todos eram e todos precisavam se converter). Até que surgem movimentos transformadores na Igreja sul americana. A partir de dois grandes encontros de bispos (Medellin e Puebla) surge a Teologia da Libertação. Dela derivam várias atuações concretas que tem no olhar coletivo para o sofrimento do povo, sua maior preocupação. Um olhar que deixa de ser contemplativo para ser questionador, militante e transformador de realidades. Nesse período surgem as CEBs – Comunidades Eclesiais de Base – que tem forte militância inclusive na derrubada da ditadura brasileira, gerando grandes lideres e grupos para nossa sociedade. Na Pastoral da Juventude, a grande revolução foi o método VER-JULGAR-AGIR, que propunha conhecer a realidade, analisá-la à luz do evangelho e propor alternativas de mudanças. O Congresso Diocesano que citei foi todo construído nessa metodologia.

Começamos em Salto a nos aprofundar nessa prática. Nosso grupo fez muitos estudos e elaborou ações a partir do método. Isso começou a tomar corpo na diocese e as pressões para a mudança ocorreram, até que D. Roberto nomeia uma coordenação que tinha como característica maior a Teologia da Libertação, e eu era o coordenador geral (isso em 1985). Em 1983 já estava na coordenação, que era um colegiado e que realizou o Congresso Diocesano. Quando me vi coordenador da Pastoral da Juventude – espaço onde poderíamos ter a preparação de muitas lideranças para nossa sociedade – intensifiquei (e o Renato estava junto) os princípios e práticas da Teologia da Libertação em documentos e orientações para os grupos da diocese. E nesse momento acontece o que me fez retirar da memória os momentos ricos e intensos daquele período: nosso bispo D. Roberto (isso não está no livro) exigiu de mim uma mudança de princípios, ordenando que voltasse a prática da pastoral espiritual e contemplativa. Por conta disso, em meados de 1986 deixei a coordenação.

O livro me fez um bem danado. Espero que o Renato leia esse meu artigo. Fez bem não só por recuperar um período muito intenso de minha vida, como também por perceber que coordenei um grupo que quis e lutou por grandes transformações. Uma das frases de Renato, na página 73 do livro, quando fala que assumi a coordenação da Pastoral, calou-me fundo: “Foi o momento mais democrático da Pastoral da Juventude local. Tudo o que foi possível fazer para organizar este trabalho foi feito.” Depois joga para a falta de apoio das comunidades e a persistência de lideranças no modelo tradicional como os fatores que “fizeram água” (expressão minha) na proposta. A democracia é um princípio enraizado em minha vida (ainda bem…).

Muitas são as belas passagens daquele período. Muitas são as raízes que ficaram pelo resto da vida. Muitas, também as feridas. Mas a vida em comum unidade foi, está e estará sempre presente em meus objetivos. Obrigado Renato por ter ressuscitado em mim maravilhosas recordações, marcas e inspirações. Espero sempre ser coerente com elas.