sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Maus Tratos a Crianças

Rede Brasil Atual

Levantamento do Hospital das Clínicas de São Paulo revela também que 75% das vítimas ainda não completaram 2 anos de idade, que as mães são as principais agressoras e que 10% dos casos são de abuso sexual

São Paulo - O número de casos de maus tratos infantis no primeiro semestre de 2010 foi 36% maior que no mesmo período do ano passado. Esta é a constatação de um levantamento do Serviço Social do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em 60% dos casos registrados os pais foram os agressores, sendo a mãe a que mais cometeu o crime.

Além da mãe e do pai, os agressores mais frequentes são outros membros da família, como tios, irmãos, padastros e madastras. O abuso sexual responde, em média, por 10% dos casos de violência infantil.

Até julho passado, foram atendidos 60 casos de violência infantil no HC, entre eles uma tentativa de suicídio de uma garota de 13 anos, vítima de agressão psicológica pelos pais. “Elas alegam passar mais tempo com os filhos e muitas vezes acabam descontando nas crianças as frustrações e as brigas com o companheiro”, diz o pediatra Antônio Carlos Alves Cardoso, que trabalha no Instituto da Criança e no Hospital Auxiliar de Cotoxó, também ligado ao HC.

O especialista alerta que 75% dos casos de agressão acontecem com crianças menores de dois anos. “Desse percentual, metade é menor de um ano, fase na qual a criança ainda não consegue se expressar ou se defender”, observa o médico.

De acordo com a sua tese de doutorado, mais de 90% das crianças que sofrem agressão terão seqüelas físicas ou psicológicas. “Quanto mais nova for a criança agredida, maior a chance da sequela ser grave”, relata. Os meninos são as maiores vítimas da chamada “síndrome do bebê chacoalhado” porque têm mais cólicas e choram muito.

A equipe de saúde multidisciplinar do Instituto da Criança, que inclui médicos, enfermeiras, assistentes sociais e psicólogos, é treinada para diferenciar uma violência de um possível acidente. “O atendimento deve ser bem detalhado, porque 60% das vítimas voltarão a ser agredidas”, alerta Cardoso.

Mudanças repentinas de comportamento das crianças são fortes indícios de que elas podem estar sofrendo algum trauma. “É fundamental ficar atento a essas alterações, como dificuldades de se alimentar e dormir, ou introspecção, timidez e passividade exagerada”, destaca o médico, acrescentando que, às vezes, as pessoas nem desconfiam dos verdadeiros agressores. “Pequenos detalhes que as crianças emitem podem ser fundamentais para evitar uma tragédia, pois estatísticas mostram que 5% das vítimas de maus tratos acabam morrendo na mão dos agressores”.

Com informações da agência HC de Notícias

DO BLOGUEIRO>  O que mais impressiona é ser a mãe a maior agressora...

Teatro Municipal de SP Restaurado

Do Luis Nassif

Por socram pb
Nassif, um pouco de cultura contra a barbárie ! :-)
do R7

No site tem mais fotos da restauração
publicado em 05/11/2010 às 05h50:
Do R7

Restauração do Teatro Municipal de São Paulo chega à reta final

Espaço será reaberto ao público em abril de 2011

Luciana Sarmento, do R7
Prédio de 1911 passa por sua terceira grande reforma, que começou em setembro de 2008 e está prevista para terminar em novembro deste ano

Após dois anos, as obras de restauração e conservação do Teatro Municipal de São Paulo chegam à reta final. O trabalho será concluído no mês de novembro, mas o público só poderá conferir o resultado final em abril de 2011, quando o teatro reabrirá.

Foram restaurados a área do bar e restaurante, o salão nobre e a fachada do prédio. Artistas se basearam em fotos antigas para recriar a pintura interna e restaurar partes que estavam deterioradas. Também foram reformados todos os vitrais do teatro, originalmente fabricados na cidade de Stuttgart, na Alemanha.

Esta não é a primeira vez que o edifício, inaugurado em 1911, passa por uma reforma. Nos anos 50, foi instalado ar-condicionado e novos pavimentos foram criados para aumentar os camarins. Nesta época, o teatro ganhou o órgão G. Tamburini. Em 1986, o prédio foi restaurado.

A arquiteta que coordena a obra, Rafaela Bernardes, do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, conta que participam dessa restauração, iniciada em setembro em 2008, cerca de 60 funcionários. Todos são especialistas em cada um dos tipos de materiais usados na reforma: metais, argamassa, pedra, vitrais e madeira.

- É mão de obra da construção civil, mas é muito mais detalhada. Então a gente cobra muito. O grau de exigência é muito alto.

Vitrais alemães

Pela primeira vez, todos os vitrais do teatro foram totalmente desmontados, restaurados e colocados novamente no lugar. O trabalho é minucioso e, antes de ser aprovado, passa por vários testes que buscam o resultado mais próximo da arte original. Essa foi uma das partes mais difíceis da restauração, segundo a arquiteta.

- Você depende de muito teste. Durante muito tempo, eu só falei não. Vários artistas tentaram fazer a pintura e não conseguiram.

Para que os vitrais sejam melhor vistos por quem passa do lado de fora do teatro, as grades que os protegiam foram trocadas por vidros que filtram os raios ultravioletas UVA e UVB. Eles também receberão iluminação especial.

Apesar do cuidado dos restauradores em perseguir a arte original, nem tudo ficou idêntico. A pintura da sala onde funcionarão o restaurante e o bar, por exemplo, tem um tom diferente da última restauração feita em 1987.

- É para datar a intervenção. Senão, vira uma falsificação. São coisas sutis, que a maioria do público não percebe. A gente fica atento para não gerar esse falso histórico.

Uma surpresa encontrada pelos arquitetos foi o material usado originalmente nos elementos que decoraram a fachada do prédio. O achado mudou o projeto, que tinha como objetivo restaurar a pintura desses detalhes.

- Quando a gente começou a retirar a tinta, a gente percebeu que a argamassa tinha uma cor. Aquilo não era uma argamassa qualquer e recebeu tinta nas últimas restaurações. A gente conseguiu restaurar como era em 1911.

Para fazer o trabalho de restauração e conservação, foram gastos R$ 7,1 milhões. A obra é feita pela Secretaria Municipal de Cultura. Até 75% do custo foi financiado com recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o restante com dinheiro da prefeitura.

Na reabertura, haverá uma programação especial, que celebrará também o centenário do teatro.

Modernização do palco 

O trabalho de modernização do palco começou no final de julho passado e está previsto para terminar em março do ano que vem. Está sendo refeita toda a parte de sonorização, acústica, mecânica cênica e o tratamento acústico do fosso da orquestra.

As varas que ficam no teto do palco para segurar equipamentos de luz e som passarão a suportar um peso de até 780 kg. Antes, elas aguentavam, no máximo, 180 kg. O custo total dessa parte da obra é de R$ 13,2 milhões.

DO BLOGUEIRO> Vale a pena ver as fotos!!!

Jobim e a Defesa da Soberania Brasileira

Do VioMundo

4 de Novembro de 2010 – 9h16

Jobim defende soberania da América do Sul e critica Otan e EUA

do Vermelho

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, criticou veementemente as estratégias militares globais dos EUA e da Otan — aliança militar ocidental. Ele afirmou que nem o Brasil nem a América do Sul podem aceitar que “se arvorem” o direito de intervir em “qualquer teatro de operação” sob “os mais variados pretextos”.

Jobim disse que o Brasil não aceita discutir assuntos relativos à soberania do Atlântico enquanto os norte-americanos não aderirem à convenção da ONU sobre o direito do mar, que estabelece regras para exploração de recursos em águas nacionais.

Ele lembrou que os EUA não firmaram a Convenção sobre o Direito do Mar da ONU e, portanto, “não reconhecem o status jurídico de países como o Brasil, que tem 350 milhas de sua plataforma continental sob sua soberania”. “Como poderemos conversar sobre o Atlântico Sul com um país que não reconhece os títulos referidos pela ONU? O Atlântico que se fala lá é o que vai à costa brasileira ou é o que vai até 350 milhas da costa brasileira?”

Também referiu-se a uma “alta autoridade” americana que defendeu “soberanias compartilhadas” no Atlântico. “Não pensamos em nenhum momento em termos de soberanias compartilhadas. Que soberania os Estados Unidos querem compartilhar? Apenas as nossas ou as deles também?”, questionou.

O ministro da Defesa falou na abertura da 7ª Conferência do Forte de Copacabana, promovida pela Fundação Konrad Adenauer, ligada à Democracia Cristã alemã, para criar um “diálogo” entre América do Sul e Europa em segurança.

América do Sul

Ele se disse contrário ainda as alianças militares entre a América do Sul e os Estados Unidos. “Nossa visão é a de que podemos ter relações com os EUA, mas a defesa da América do Sul só quem faz é a América do Sul”. O ministro defendeu que o Brasil não deve se aliar a forças militares que não aceitem o comando de outros exércitos. “Os EUA não participam das forças humanitárias da ONU porque não admitem ser comandados por outros exércitos. Não podemos aceitar esse tipo de assimetria”, declarou.

Papel dominante

Em resposta ao alemão Klaus Naumann, ex-diretor do Comitê Militar da Otan, que disse que a Europa é o “parceiro preferencial” de que os EUA necessitam para manter seu papel dominante no mundo, o ministro disse: “Não seremos parceiros dos EUA para que eles mantenham seu papel no mundo”.

Segundo Jobim, a Europa “não se libertará” de sua dependência dos EUA e por isso tende a sofrer baixa em seu perfil geopolítico. O da América do Sul tenderia a crescer, pelo crescimento econômico e os recursos naturais, água inclusive, de que dispõe em abundância, enquanto escasseiam no mundo.

Energia Nuclear

Na avaliação de Jobim, as relações entre os países signatários do Tratado Sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares também é assimétrica e penaliza aqueles que buscam gerar energia nuclear para fins pacíficos. Para ele, não há problemas no interesse da Venezuela em dominar essa tecnologia. “A Venezuela sentiu o problema da sua base de energia elétrica ser hidrelétrica e teve inclusive que fazer racionamento”, disse. “A Venezuela fez tal qual o Brasil. E nós aplaudimos”, complementou sobre o país vizinho, considerado um problema no continente pelos EUA.

Cuba

As críticas de Jobim aos norte-americanos ainda abordaram a relação do país com Cuba. “Qual foi o resultado do bloqueio a Cuba? Produziram um país orgulhoso, pobre e com ódio dos EUA”, disse.
Para o ministro, os riscos à segurança da América do Sul e os conflitos do futuro estarão relacionados à água, minerais e alimentos. “Isso a América do Sul tem. Temos aqui o aquífero Guarani, a Amazônia, somos os maiores produtores de grãos e de proteína animal do mundo”, enumerou. “Temos que nos preparar para isso”, advertiu sobre possíveis ameaças futuras.

As declarações do ministro Jobim ratificam no terreno da defesa, os traços determinantes da política externa brasileira. O Brasil optou pelo caminho do exercício da sua soberania, da integração regional e do anti-hegemonismo estadunidense. O pronunciamento reveste-se de grande atualidade, porquanto a Otan, pacto militar agressivo sob a hegemonia norte-americana se reunirá ainda este mês em Lisboa, para definir o novo conceito estratégico. Entre outros pontos, na pauta da cúpula da Otan estão a expansão do raio de ação, com foco para todas as regiões do mundo, incluindo o Atlântico Sul.

Preconceito Exacerbado

Depois de alguns dias não descansando, pelo contrário, com muitas atividades, volto aos meus posts com um assunto que é resultado ainda das eleições presidenciais. Um movimento originado no sul e sudeste de claro preconceito contra nossos irmãos nordestinos. Veja uma das notícias a respeito do blog da ÉPOCA:

A eleição para Presidente da república gerou um movimento regionalista preconceituoso no Twitter. Perfis de pessoas que supostamente moram nas regiões sul e sudeste “acusavam” o povo nordestino de ter sido responsável pela escolha de Dilma para a presidência – fato que provavelmente não agradou. A resposta veio em tom parecido por parte de alguns nordestinos, que responderam na mesma “categoria”.
São diversos exemplos de frases e hashtags preconceituosas. O perfil @vovo_panico (que é um fake da humorista do programa Pânico na TV), por exemplo, twittou a seguinte frase: “Gente, o que nois do Sul/Sudeste estamos fazendo no twitter ? vamos trabalhar pra sustentar mais 4 anos de Bolsa Familia do Norte/Nordeste”. Um outro perfil (que não me parece fake e por isso não vou identificá-lo) mandou esta: “Chega de carregar nas costas um bando de ignorantes e parasitas q sempre viveram as custas do estado. DIVISÃO JÁ #nordestisto).”

É bom que se esclareça: aqui no Bombou, não costumamos falar de ações isoladas que envolvam racismo, homofobia, regionalismos etc. Não é legal dar espaço para este tipo de gente e o Ministério Público tem cuidado disso muito bem. Mas quando isso se torna um movimento, capaz de levar uma hashtag preconceitusa para os Trending topics, é dever informar.

Criaram um tumblr que para reunir todas as manifestações preconceituosas (de pessoas do sul e sudeste com pessoas do norte e nordeste). É o http://xenofobianao.tumblr.com/. Mas é bom esclarecer que o termo Xenofobia se refere apenas ao preconceito com estrangeiros. No caso do embate envolvendo Sudeste e Nordeste, o termo mais correto seria Regionalismo, ou com o perdão da expressão, Imbecilidade.

Abaixo, uma das reações vindas da OAB/PE:


No domingo, usuários do microblog começaram a postar mensagens ofensivas ao Nordeste contra a vitória de Dilma
Recife. A seção Pernambuco da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE) entra hoje, na Justiça de São Paulo, com representação criminal contra a onda de ataques aos nordestinos divulgada pelo Twitter após o resultado da eleição.




No domingo à noite, usuários da rede de microblogs começaram a postar mensagens ofensivas ao Nordeste contra a vitória de Dilma Rousseff, relacionando o resultado à boa votação de Dilma na região. A representação da OAB-PE é contra a estudante de Direito Mayara Petruso, de São Paulo, uma das que teriam iniciado os ataques. Segundo o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, Mayara deve responder por crime de racismo (pena de dois a cinco anos de prisão, mais multa) e incitação pública de prática de crime (cuja pena é detenção de três a seis meses, ou multa), no caso, homicídio. Entre as mensagens postadas pela universitária, há frases como: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.

“São mensagens absolutamente preconceituosas. Além disso, é inadmissível que uma estudante de Direito tenha atitudes contrárias à função social da sua profissão. Como alguém com esse comportamento vai se tornar um profissional que precisa defender a Justiça e os direitos humanos?”, diz Mariano.

Em julho deste ano, a seção pernambucana da Ordem já havia prestado queixa à Polícia Federal contra pelo menos dez usuários do Twitter, por mensagens ofensivas aos nordestinos após as enchentes na região.

“Essas redes sociais são meios de comunicação de alcance nacional, e crimes que ocorram nelas são de ordem federal. São ofensas que atingem todos os nordestinos, existe um direito difuso aí sendo desrespeitado”, completa Mariano.

No domingo, usuários do Twitter insatisfeitos com a vitória de Dilma postaram frases como “Tinham que separar o Nordeste e os bolsas vadio do Brasil” e “Construindo câmara de gás no Nordeste matando geral”. Como reação, outros usuários passaram a gerar mensagens com “#orgulhodesernordestino”, hashtag que ficou entre os primeiros lugares no ranking mundial no Twitter.

E agora um artigo de Osvaldo Castro sobre o orgulho de ser nordestino:

“… é muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos”. Ariano Suassuna 
Expressão “orgulho de ser nordestino” surgiu como reação a mensagens discriminatórias e xenófobas postadas na internet por ensejo da eleição de Dilma, para presidente do Brasil. Antes de analisar a questão em si, faz-se necessário, desde logo, destacar que, mesmo sem os eleitores do Norte e do Nordeste, Dilma venceria Serra http://is.gd/gAyRp.

Alguns insistem que, ao se defender o “orgulho de ser nordestino”, cai-se na bobagem sectarista ou fomenta-se o discurso segregante. Afinal, “somos todos brasileiros”. Desse modo, melhor seria deixar essa segregação para lá e se fixar apenas no “orgulho de ser brasileiro”.

Orgulho de ser brasileiro não afasta o orgulho de ser nordestino. Reforçar o orgulho de ser nordestino impõe-se como analética da alteridade. Analética é a junção do grego aná, quer dizer, mais além, mais alto e logos, palavra. Portanto, analética significa a palavra que vem do outro, além do fundamento e daquele que não consegue ser cidadão em sua polis de existência. Dessa forma, a analética da alteridade “indica a razão que vem do outro negado, desconsiderado pelo processo de exclusão social e econômico, cuja tese fundamental alicerça a violência injusta destruidora da condição cidadã; a ordem dos deveres que o sistema impõe sem possibilidade de exercício dos direitos em contrapartida” (Dallabrida, 2003).

Frisar o orgulho de ser nordestino é reagir ao argumento que não aceita a exterioridade (negador do outro). Trata-se, desse modo, da tentativa de engendrar discurso a partir da libertação do outro, da afirmação da alteridade negada na totalidade.

Há na perspectiva discriminatória nítida tentativa de apresentar o outro como alteridade, destacando-o como estranho, diferente, distinto. O nordestino não pode aceitar calado ou se esconder atrás do discurso cordial, quando se apresenta em curso processo marginalizador a situá-lo fora da nacionalidade.

Os ofendidos precisam reagir. A partir da reação dos ofendidos torna-se possível inverter certa “lógica” discursiva de caráter hegemônico e exclusivista. A resistência do alijado não pode ser considerada mero discurso contrário ou birra de bobinhos que se sentem vitimizados, mas testemunho desopressor.

Sinto enorme orgulho de ser nordestino. Esse orgulho de ser nordestino não pode ser entendido como contrariedade ao orgulho de ser brasileiro, vez que sinto imenso orgulho de ser brasileiro. Pelo contrário, ele se afigura como afirmação da brasilidade nordestina que o discriminador pretende rejeitar.

O discurso segregante quer negar a brasilidade ao nordestino e o nordestino jamais sentirá orgulho de ser brasileiro, caso não sinta orgulho de ser nordestino (que é, nada mais nada menos, do que a asserção de que o brasileiro só o é enquanto o é nordestino também). O orgulho de ser brasileiro, pressupõe o orgulho de ser nordestino.

O orgulho de ser nordestino não tem o propósito de nos incluir na brasilidade, mas de revigorar nossa inclusão na brasilidade que os segregadores almejam nos negar. O discurso discriminatório quer que sintamos vergonha de nos afirmamos nordestinos, quer nos impor a ideia de que os nordestinos são diferentes dos brasileiros, numa ilação destituída de qualquer razoabilidade, salvo da razão hegemônica que se arroga, antes de tudo, o poder da distinção.

Impressionante como algumas baixarias humanas não tem limite....

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Globo e sua Semântica

Do Luis Nassif

Por Marco Aurélio Barroso
Incidências Semânticas nos títulos de O Globo

O resultado do 1º turno, com a expressiva votação em Marina, trouxe para os adeptos da candidatura Serra, como O Globo, uma tênue esperança de virada.

Platão dizia: as palavras dizem o que são. Então, vamos a elas.

Façamos, sem índole poética, um breve estudo das incidências semânticas dos 27 títulos do vespertino carioca no interregno da 1ª para 2º urna.

Em nenhum momento, O Globo se ausentou da luta. Diariamente, via-se estampada essa moral severa sempre bem utilizada quando se trata de ajudar o candidato dos sonhos e denegrir o candidato infernal.

Foi assim com Eduardo Gomes, foi assim com Juarez Távora, foi assim com Jânio Quadros, foi assim com Collor, foi assim com Serra.

Ocasionalmente, quando o candidato de O Globo vence, a vida os derrota. Um saiu (Collor), o outro foi saído (Jânio). Com O Globo sempre foi assim. Mas passemos.  

Nesses 27 títulos, tivemos 262 palavras. Dilma foi citada 11 vezes e Serra, 7. Os dois juntos apenas 2 vezes (no dia 12: Dilma e Serra mantêm mudança de tática;  e no dia 17: Meio ambiente não entra no discurso de Dilma e Serra).

A notar que, logo no dia seguinte, tem-se o dissabor da omissão de Marina.

Todas as incidências com o nome Dilma ou são negativas ou levam o leitor a algo vulnerável:

Dilma fará ofensiva para atrair voto conservador -  Dilma admite “salto alto” –
Dilma muda estratégia -Dilma lançará “Carta” contra aborto – Queda de Dilma, junta Lula, PT e Petrobras  - Inquérito liga nome de Dilma à violação de sigilo - Dilma nega acusação.

Somente no dia da eleição é que se tem, e pela primeira vez,  o nome Dilma sem estar ligado a algo negativo e mesmo assim num sub-titulo: Dilma mantém vantagem sobre Serra.  Enfim! 

Já o nome de Serra, a semelhanças de certas realezas, é sempre positivo. São poucas incidências pois não é fácil, mesmo para O Globo, achar algo positivo em seu patético candidato: Serra muda de rumo e defende legado de FH na campanha -  O novo resgate dos mineiros (com foto de Serra alusivo à vitória dos mineiros de Copiapó) -  Serra sobe o tom.   

Outro interessante aspecto é a utilização das aspas. Sempre com ironia e sempre a favor de Serra: Dilma:admite “salto alto”Dilma lançará “Carta”  contra o aborto e o casamento gay Imagens desmentem “indignação” de Lula.

A palavra Petrobras aparece 4 vezes. Em todas, negativamente: Diretor de estatal tem contratos com a Petrobras -  Queda de Dilma, junta Lula, Petrobras e MST  - Petrobrás muda prazo e explora o pré-sal na eleição - Petrobras faz campanha todos os dias.

Todas as palavras de cunho negativo, e são várias, juntam-se à Dilma: conservador, - aborto ilegal -  ataque direto -  inquérito -  violação -  nega acusação -  Erenice -  superavit falso - Casamento gay.

Nenhuma incidência de palavra de cunho negativo ligada ao nome Serra.

A palavra Lula (presidente)  é sempre mal-vista: Lula paralisa o governo, -  Queda de Dilma, junta Lula, Petrobrás e MST -  Lula não cumpriu -  “indignação” de Lula -  Lula adota o silêncio -  O presidente sai menor.

O nome Deus é citado uma vez: Candidatos invocam Deus e se atacam na propaganda da TV.  Mas, já ao fim, vendo que seu candidato não emplacava, o vespertino lança mão do representante dEle, aqui, na terra, para dar uma ajudazinha: Pressão dos bispos dá certo e Papa interfere na eleição.

O primeiro título de 5 de outubro poderia ser analisado mais profundamente: Dilma fará ofensiva religiosa para atrair voto conservador - sem querer me meter em assuntos Sociológicos, pois unir Igreja a conservadorismo, nos dias que correm, é algo perigoso, mas fica-se com o nítido proclama de que o derrotado Tasso, ao meter o braço no Sacerdote-celebrante,lá no norte, fez com o conservadorismo do título do vespertino o que, sobretudo em época eleitoral, não se deveria ter feito jamais.

O adérvbio não, só apareceu duas vezes: Meio ambiente não entra em discurso de Dilma e Serra -  Lula não cumpriu.....

Como o leitor pode concluir, mesmo que perfunctoriamente, a cobertura de O Globo é de desprezo total à verdade e ao leitor. Ou os fatos se submetem aos seus títulos ou danem-se os fatos. Não é jornalismo a ser seguido.   

A Melhor das Manchetes Sobre Vitória de Dilma

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Salto e a Vitória de Dilma

Hoje, sem dúvida, é um dia especial. Depois de uma campanha regada a baixaria em grande escala até os últimos momentos, nossa candidata ganhou as eleições com mais de 12 milhões de votos de vantagem. A única decepção talvez esteja em ver alguns próximos fazer apologias pobres e sem nenhuma perspectiva de preocupação com o futuro, como comparações com desenhos animados, vontade de não ser brasileiro e remexer os números para afirmar que somente 41% dos brasileiros elegeram Dilma, querendo fazer crer que o índice de abstenção é um "protesto" ou mesmo desinteresse as coisas do país. Pode até ser. Por isso que sou ferrenho defensor do voto facultativo. Acho que até a irresponsabilidade precisa ser respeitada. Então, vote quem se preocupa com o país.

Mas aqui em Salto, nosso partido teve um desempenho bastante interessante. Dilma teve 52,1% dos votos e o tucano, 47,9%. Foram 31.047 votos para Dilma e 28.546 para o tucano. Na região, as cidades mais próximas em que Dilma ganhou as eleições foram Monte Mor, Votorantim e Cabreúva. No estado de SP, o tucano venceu com 54,05% frente a Dilma, com 45, 95%.

Nas grandes cidades como Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto além da capital, também o candidato tucano foi mais feliz. Destaque para a vizinha cidade de Itu, onde o apoio do PV local teve bastante resultado. O tucano passou da casa dos 60%. Já em Indaiatuba, onde o partido que governa apoiava Dilma, o tucano também "levou", com quase 51% dos votos.

O que fez a diferença em Salto?

O que sempre fez a diferença no PT. Além de termos um histórico local bastante pró-PT, a atuação de nossa liderança - JUVENIL CIRELLI - e de nossos militantes, fez a diferença. Não foram medidos esforços para que a campanha na cidade estivesse sempre presente.

Poderia ser melhor? Sempre um resultado eleitoral pode ser melhor. Por ex., não foi TODA a militância que se engajou na campanha. Muitos companheiros e companheiras até históricos do partido, não participaram. Isso poderia trazer certamente mais votos.

Outra coisa bastante sentida na região foi a atuação (ou a não atuação) das lideranças locais e regionais. Como já disse, em Salto a atuação de JUVENIL foi preponderante. A pergunta que fica é: se as lideranças locais do PDT, do PSB, do próprio PP que teve votação expressiva na disputa a deputado federal, estivessem engajados na campanha do segundo turno, não teríamos um resultado mais expressivo?

O PDT, em nível nacional, "abraçou" a campanha de Dilma. Não podemos dizer o mesmo de nossa região. Indaiatuba e Salto, onde essas lideranças são mais expressivas, não vimos as mesmas atuando no segundo turno. Diferente do PV de Itu que com sua liderança eleita deputada, assumiu a candidatura do tucano e lhe proporcionou mais de 60% dos votos da cidade.

O que quero dizer com tudo isso?

1) Que o resultado de DILMA em Salto seria muito melhor se todos os partidos aliados nacionalmente atuassem localmente.
2) Que se as lideranças locais, ligadas a Dilma pelos seus partidos, fizessem campanha, como JUVENIL fez, teríamos um resultado mais positivo não só em Salto, mas na micro região também. Por que não fizeram?
3) Que a vitória de Dilma em Salto e no país forçará uma definição clara das lideranças regionais sobre o novo governo e nossa região.
4) Que isso tudo terá interferências claras nas eleições municipais de 2012. E quando falo tudo, incluo as questões regionais também. Não só as locais.

Por fim a grata surpresa desta eleição para mim foi o avanço do PSB nas esferas de poder nacionais. Nada menos que 6 governadores foram eleitos pelo partido. E o que é mais gratificante: todos com cortes claros de esquerda. Isso também terá evidentes interferências aqui em Salto. Os atuais pessebistas saltenses seguirão essa linha clara de opção do partido à esquerda?

Agora o momento é de descanso político e de muitas reflexões. Entretanto, é um momento muito curto. Nossa futura presidente já começou hoje a agendar as reuniões para transição de governo. No mundo da política os acontecimentos não esperam. Para nós saltenses é chegada a hora de pensarmos e definirmos as possibilidades e alternativas para 2012. Logo!!!

Oposição - O que Fica

Do Luiz Nassif

A grande disputa política pós-eleições não será entre PSDB e Dilma. Será, mais ostensivamente, entre José Serra e Aécio Neves pelo espólio do PSDB brasileiro. Mais discretamente, entre Serra e Alckmin, pelo comando do PSDB paulista.

Este é Serra. Seu estilo político, sua compulsão, seu perfil psicológico é o do conflito permanente, da desagregação, do estilo trator. Só que desta vez não terá o respaldo de um cargo relevante nem a perspectiva de uma nova candidatura à presidência, seja pela idade, seja pelas mágoas que construiu ao longo de sua carreira.

Em seu discurso de ontem, Serra tentou preservar um legado político que consiste no seguinte:

A exploração dos temores de uma classe média assustada, similar ao processo que culminou na Marcha da Família no pré-golpe de 1964. Com a diferença que os tempos são outros.Uma estrutura de militância virtual agressiva e sem limites, que ajudou a espalhar infâmias por todo o país.O apoio de comentaristas da velha mídia, que não abandonarão a guerra santa contra Dilma.

É pouco.

No momento esses grupos apoiam Serra por ainda se estar no calor da campanha. Mas, com exceção da mídia, não são forças que possam ser mobilizadas fora do embate eleitoral

A não ser que Serra pretenda ressuscitar os fantasmas do Padre Peyton, de Penna Botto, do IBAD e virar santinho de procissão.

Quando baixar a poeira, os palanques estarão com Alckmin, em São Paulo, com Aécio no Senado, atraindo parcelas relevantes do PSDB não paulista.

É totalmente fora de cogitação que Alckmin sirva de escada para Serra em São Paulo. O apoio de Alckmin visou apenas preservar a unidade do partido, com um ingrediente que tanto Serra quanto FHC nunca praticaram: a lealdade partidária.

Quando assumiu o governo de São Paulo, a primeira atitude de Serra foi varrer de seus cargos todos os seguidores de Alckmin. Nas eleições para prefeito, apoio Gilberto Kassab jogando Alckmin para escanteio.

Alckmin representa muito melhor o eleitorado conservador paulista do que Serra. É conservador por formação; Serra, por conveniência. Tem uma postura pública discreta, sem «forçar a amizade» - estilo que o paulista, por formação, detesta. O Serra que emerge desse campanha, com esse neopopulismo forçado, invadindo casas de pessoas, lendo a Bíblia, é mais falso do que Cds da Santa Ifigênia. Conseguiu o cacife em São Paulo praticando campanha negativa. Muitos votaram contra Dilma; poucos votaram nele. Tem relacionamento ótimo com os prefeitos, ao contrário de Serra que sempre os tratoiu com desprezo. É religioso mas não explora a religiosidade.

Com Alckmin, o paulista conservador depositará seu voto sem torcer o nariz.

No plano nacional, será impensável pensar que Serra conseguirá se impor. É desagregador, não terá plataforma de apoio sequer em São Paulo. Na campanha, não conseguiu criar uma imagem positiva, para se contrapor ao lulismo.

Ainda levará alguns meses até a poeira assentar de vez. Assim que os ecos da batalha estiverem distantes, o PSDB terá duas novas lideranças, ou disputa espaço ou se acertando entre si: Aécio no plano nacional, Alckmin no plano federal.

A Serra e FHC restarão as entrevistas periódicas ou artigos nos jornalões: FHC falando de país, de conceitos, dando o tom; Serra se lamentando e discursando contra a corrupção e a favor de Deus, da pátria e da família.

Os Mitos Sobre a Vitória de Dilma

Do Luis Nassif

Três mitos sobre a eleição de Dilma


Marcos Coimbra desfaz falsas análises a respeito da eleição da petista

Enquanto o País vai se acostumando à vitória de Dilma Rousseff, uma nova batalha começa. Nem é preciso sublinhar quão relevante, objetivamente, é o fato de ela ter vencido a eleição, nas condições em que aconteceu. Ela é a presidente do Brasil e, contra este fato, não há argumentos.

Sim e não. Porque, na política, nem sempre os fatos e as versões coincidem. E as coisas que se dizem a respeito deles nos levam a percebê-los de maneiras muito diferentes.

Nenhuma versão muda o resultado, mas pode fazer com que o interpretemos de forma equivocada. Como consequência, a reduzir seu significado e lhe diminuir a importância. É nesse sentido que cabe falar em nova batalha, que se trava em torno dos porquês e de como chegamos a ele.

Para entender a eleição de Dilma, é preciso evitar três erros, muito comuns na versão que as oposições (seja por meio de suas lideranças políticas, seja por seus jornalistas ou intelectuais) formularam a respeito da candidatura do PT desde quando foi lançada. E é voltando a usá-los que se começa a construir uma versão a respeito do resultado, como estamos vendo na reação da mídia e dos “especialistas” desde a noite de domingo.

O “economicismo” – O primeiro erro a respeito da eleição de Dilma é o mais singelo.

Consiste em explicá-la pelo velho bordão “é a economia, estúpido!”

É impressionante o curso que tem, no Brasil, a expressão cunhada por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, quando quis deixar clara a ênfase que propunha para o discurso de seu cliente nas eleições norte-americanas de 1992. Como o país estava mal e o eleitorado andava insatisfeito com a economia, parecia evidente que nela deveria estar o foco do candidato da oposição.

Era uma frase boa naquele momento, mas só naquele. Na sucessão de Clinton, por exemplo, a economia estava bem, mas Al Gore, o candidato democrata, perdeu, prejudicado pelo desgaste do presidente que saía. Ou seja, nem sempre “é a economia, estúpido!”

Aqui, as pessoas costumam citar a frase como se fosse uma verdade absoluta e a raciocinar com ela a todo momento. Como nas eleições que concluímos, ao discutir a candidatura Dilma.

É outra maneira de dizer que os eleitores votaram nela “com o bolso”.
Como se nada mais importasse. Satisfeitos com a economia, não pensaram em mais nada. Foi o bolso que mandou.

Esse reducionismo está equivocado. Quem acompanhou o processo de decisão do eleitorado viu que o voto não foi unidimensional. As pessoas, na sua imensa maioria, votaram com a cabeça, o coração e, sim, o bolso, mas este apenas como um elemento complementar da decisão. Nunca como o único critério (ou o mais importante).

A “segmentação” – O segundo erro está na suposição de que as eleições mostraram que o eleitorado brasileiro está segmentado por clivagens regionais e de classe. Tipicamente, a tese é de que os pobres, analfabetos, moradores de cidades pequenas, de estados atrasados, votaram em Dilma, enquanto ricos, educados, moradores de cidades grandes e de estados modernos, em Serra.

Ainda não temos o mapa exato da votação, com detalhe suficiente para testar a hipótese. Mas há um vasto acervo de pesquisas de intenção de voto que ajuda.

Por mais que se tenha tentado, no começo do processo eleitoral, sugerir que a eleição seria travada entre “dois Brasis”, opondo, grosso modo, Sul e Sudeste contra Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os dados nunca disseram isso. Salvo no Nordeste, as distâncias entre eles, nas demais regiões, nunca foram grandes.

Também não é verdade que Dilma foi “eleita pelos pobres”. Ou afirmar que Serra era o “candidato dos ricos”. Ambos tinham eleitores em todos os segmentos socioeconômicos, embora pudessem ter presenças maiores em alguns do que em outros.

As diferenças no comportamento eleitoral dos brasileiros dependem mais de segmentações de opinião que de determinações materiais. Em outras palavras, há tucanos pobres e ricos, no Norte e no Sul, com alta e com baixa escolaridade. Assim como há petistas em todas as faixas e nichos de nossa sociedade.

Dilma venceu porque ganhou no conjunto do Brasil e não em razão de um segmento.

O “paternalismo” – O terceiro erro é interpretar a vitória de Dilma como decorrência do “paternalismo” e do “assistencialismo”. Tipicamente, como pensam alguns, como fruto do Bolsa Família.

Contrariando todas as evidências, há muita gente que acha isso na imprensa oposicionista e na classe média antilulista. São os que creem que Lula comprou o povo com meia dúzia de benefícios.

As pesquisas sempre mostraram que esse argumento não se sustenta. Dilma tinha, proporcionalmente, mais votos que Serra entre os beneficiários do programa, mas apenas um pouco mais que seu oponente. Ou seja: as pessoas que tinham direito a ele escolheram em quem votar de maneira muito parecida à dos demais eleitores. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os candidatos do PSDB aos governos estaduais foram eleitos com o voto delas.

Os três erros têm o mesmo fundamento: uma profunda desconfiança na capacidade do povo. É o velho preconceito de que o “povo não sabe votar” que está por trás do reducionismo de quem acha que foi a barriga cheia que elegeu Dilma. Ou do argumento de que foram o atraso e a ignorância da maioria que fizeram com que ela vencesse. Ou de quem supõe que a pessoa que recebe o benefício de um programa público se escraviza.

É preciso enfrentar essa nova batalha. Se não, ficaremos com a versão dos perdedores.


 Marcos Coimbra
Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.

Artigo - O DIA DA ESTACA

Brasília Confidencial No 377

AYRTON CENTENO

"Foi como um milagre; diante de nossos próprios
olhos, em menos de um segundo, todo o corpo se
transformou em pó e desapareceu de nossa vista”.

Drácula, De Bram Stoker
 
Milhões de brasileiros tomaram este domingo de outubro nas mãos com imenso cuidado. Havia um compromisso. Era preciso devolver as trevas às próprias trevas, o atraso ao atraso, o esgoto ao esgoto, a farsa aos farsantes, o medo ao medo, o ódio aqueles que odiosamente o disseminaram e a hipocrisia de uma campanha aos hipócritas que a conceberam e encenaram. Para depositar o século 13, que recentemente nos visitou, no seu sepulcro de 700 anos. Ao final da tarde, o serviço estava feito e a missão cumprida.

Bem antes das 12 badaladas que separam o dia que morre do dia que vai nascer soube-se, afinal, que a escuridão fora tragada pela própria escuridão. Neste 31 de outubro, ensolarado para uns, sombrio para outros, os eleitores partiram de casa portando duas armas: voto e vontade. Juntas, ambas transformaram-se, diante da urna, em um instrumento de redenção.

Mas foram além. Simultaneamente exorcizou-se o regressismo que acenava com um passado recente, mas também remoto graças aos adereços obscurantistas com que desfilou na campanha. A tarefa necessária foi realizada tendo a luz solar como cúmplice pois, como adverte a lenda, é quando o mal dorme na sua tumba.

Vontade e voto viraram estaca enfiada à força de martelo no coração da miséria moral que nos assolou. Quando a madeira rompeu a carne, houve um esgar, o pescoço se retorceu, as mandíbulas avançaram, os caninos se projetaram e as mãos ergueram suas garras além do esquife. Mas era tarde demais. Morreu, de morte matada, um tipo de fazer política que foge da política para se refugiar na agenda paralela dos temas de convicção religiosa e comportamental, até então ausentes da disputa. Que, sem vigor para andar com as próprias pernas, valeu-se da muleta da religião. Que plantou no ambiente eleitoral o questionamento do Brasil laico, sacramentado em 1899 com o advento da República e da separação entre Estado e Igreja. Que traficou para a campanha um fundamentalismo até então ausente, veículo que carrega consigo a ameaça aos atuais direitos da mulher e tolhe sua luta para alcançar novos direitos como se planteia em qualquer sociedade justa e harmônica. E a negação de plena cidadania aos homossexuais.

Distorções destiladas à superfície, mas, sobretudo, nos subterrâneos da infâmia. Morreu um tipo de vale-tudo que fez do preconceito contra a mulher alavanca de uma retórica assumida no horário eleitoral – a adversária vista como marionete e despreparada – ou muito mais ofensiva, mentirosa e covardemente expelida nas cloacas remuneradas do telemarketing e da internet.

Morreu a pantomima como elemento de campanha. Que levou ao paroxismo a dramatização de um episódio inexpressivo imaginando, afoita e equivocadamente, que o apoio de uma imprensa conivente até a medula seria o bastante para transmutar o pouco em muito, a água em vinho e o fiasco em tragédia.

Morreu um tipo de candidatura e de candidato que escalou seu caráter como mero serviçal de uma ambição sem limites. Que não hesitou diante de nenhum dos abismos que se abriram a sua frente: o do ridículo, o da mentira, o da calúnia, o do horror medieval.

Alguém poderá dizer: mas será mesmo que tudo isso morreu? E terá razão. A morte política, eventualmente, permite ressurreições. Como, durante algum tempo, estratégias canalhas tiveram certo grau de retorno, nada impede que alguém as exume da cripta e as ponha a andar novamente. Ou seja, os tempos que virão não nos dispensam de cautela e, de novo, voto e vontade.

Por enquanto, porém, a estaca está cravada e o vento já traz, dos sinos ao longe, o dobre de Finados. O 31 de outubro não sorriu para determinados políticos, projetos e práticas. Mas seu dia já os aguarda. Está chegando o 2 de novembro e a terra os espera. Que descansem em paz. Se puderem.