Enviado da Unasul diz que situação no Paraguai é de ‘golpe’
O secretário-geral da Unasul, Ali Rodriguez Araque, afirmou à agência britânica de notícias BBC,
nesta sexta-feira que não há interesse da oposição no Paraguai de
conter a crise política que o país enfrenta e afirmou que a comunidade
sul-americana está diante de uma “situação de fato, de um golpe de
Estado”.
Rodriguez Araque acompanha a missão de chanceleres da Unasul, que
viajou à Assunção para tentar conter a crise. O venezuelano concedeu a
entrevista pouco antes da decisão do Senado paraguaio de cassar o
mandato do presidente Fernando Lugo.
A Unasul avalia que não foi respeitado o devido processo legal para que Lugo pudesse se defender das acusações e que a democracia no país está ameaçada.
“O que vimos é que já há uma decisão tomada. Uma situação de fato, um
golpe de Estado”, afirmou Rodriguez Araque em entrevista por telefone.
A missão de chanceleres da Unasul, que inclui o ministro Antonio
Patriota, se reuniu com senadores do Partido Colorado, com a Presidência
do Congresso do Paraguai e com o vice-presidente Federico Franco, do
PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico).
Após os encontros, o secretário-geral da Unasul admitiu que a missão
diplomática “não pôde dar um rumo diferente aos acontecimentos”.
Em um comunicado, a Unasul disse que as autoridades legislativas do
Paraguai “lamentavelmente não deram respostas favoráveis às garantias
processuais e democráticas que foram solicitadas”.
O texto diz ainda que as ações em curso no país podem configurar “uma
ameaça de ruptura da ordem democrática” e que o bloco avalia em que
medida será possível manter a cooperação com o Paraguai.
Por fim, a missão da Unasul reafirma sua “solidariedade ao povo paraguaio e respaldo ao presidente constitucional Fernando Lugo”.
Ao deixar a reunião com congressistas paraguaios, o chanceler do
Equador, Ricardo Patiño, afirmou, em seu perfil no Twitter, que a
situação no Paraguai “é grave” e que “não se veem alternativas de
solução à crise”.
Rompimento
A crise política no Paraguai se agravou após o rompimento da aliança
de Lugo e Franco. A ruptura fragilizou ainda mais o presidente
paraguaio, que terminou isolado e sem apoio no Parlamento.
O vice-presidente, que agora deve assumir o poder, é acusado por Lugo
de ser um dos líderes do que o presidente definiu como um “golpe de
Estado expresso”.
Parlamentares opositores acusam Lugo de ser responsável pelas mortes
de 11 camponeses e sete policiais em um confronto agrário, na última
sexta-feira, em uma fazenda perto da fronteira com o Paraná. A
propriedade pertence ao empresário e político paraguaio Blas Riquelme.
Ainda não há uma decisão firme da Unasul sobre se será aplicada ou
não a cláusula democrática do bloco. Chamada de Carta Anti-Golpe, o
regulamento prevê o bloqueio comercial e o fechamento de fronteiras no
caso de ruptura constitucional.
O Congresso paraguaio argumenta que a Carta não foi ratificada no plenário da casa e que, portanto, não respeitarão a normativa.
Sem sucesso na mediação, caberá aos presidentes da Unasul reconhecer
ou não um eventual governo do vice-presidente Federico Franco. “A
maioria dos países não reconhecerá”, adiantou Rodriguez Araque.
Uma fonte diplomática – que acompanha a missão da Unasul – afirmou à
BBC Brasil que Colômbia e Chile “resistem” em aplicar uma sanção
rigorosa contra o eventual governo de Franco. Há uma preocupação
generalizada entre os chanceleres de que se desate um cenário de
violência no país.
Centenas de partidários do presidente paraguaio estão em “vigília” em
frente ao Congresso desde a madrugada desta sexta-feira para demonstrar
repúdio ao julgamento político de Lugo.
A fonte diplomática que participou das reuniões com a oposição
paraguaia disse à BBC Brasil que os opositores do governo reiteraram
várias vezes que, se houver “derrame de sangue”, Lugo será
responsabilizado.
Lugo delegou sua defesa a advogados, que contestaram a
constitucionalidade do processo de impeachment. Ele se reuniu com
ministros na sede do governo para acompanhar a decisão do Senado. Mais
cedo, Lugo havia dito que aceitaria o veredicto.
“Ele está sereno, apesar de tudo, porém, está muito preocupado com as
consequências para a população da volta das forças mais conservadoras
do país ao poder”, afirmou a fonte diplomática.
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